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Final Fantasy teve apenas um programador nos créditos, e ele nunca tinha jogado um RPG antes

O primeiro Final Fantasy contou com Nasir Gebelli como único programador creditado no jogo. Apesar de sua experiência com programação, ele não estava familiarizado com as convenções dos RPGs e precisou aprender conceitos básicos do gênero enquanto trabalhava no clássico da Square.

Por Sebastian Castellanos | 31 out de 2026 às 14:06 | ⏱️ 7 min de leitura

O desenvolvimento do primeiro Final Fantasy guarda uma curiosidade que ajuda a entender a história da franquia. Lançado originalmente para o Famicom, em 1987, o RPG teve sua programação atribuída a um único profissional: Nasir Gebelli. O detalhe mais interessante é que, apesar de já ser um programador experiente, ele praticamente não conhecia o funcionamento dos jogos de RPG.

Na época, Gebelli já tinha experiência com jogos de ação e havia trabalhado em projetos como Rad Racer. Entretanto, desenvolver um RPG exigia uma abordagem diferente, com exploração de mapas, cidades, equipamentos, progressão de personagens e combates por turnos.

Nasir Gebelli precisou aprender como funcionavam os RPGs

Durante o desenvolvimento, Hironobu Sakaguchi, responsável pela direção e pelo design do jogo, precisou explicar a Gebelli algumas convenções que hoje são consideradas naturais para quem está acostumado com RPGs.

Uma das situações mais curiosas envolveu os combates. No primeiro Final Fantasy, quando os jogadores encontravam inimigos, o jogo abandonava temporariamente o mapa de exploração e apresentava uma tela separada para as batalhas.

Gebelli não entendia por que essa transição era necessária. Sua pergunta, segundo a lembrança de Sakaguchi, era bastante simples: por que os personagens não poderiam lutar diretamente no local onde encontravam os inimigos?

A dúvida demonstra a diferença entre a experiência anterior do programador e as ideias que a equipe pretendia implementar. Para alguém acostumado com jogos de ação, interromper a exploração para apresentar uma tela específica de combate não era necessariamente uma escolha intuitiva.

O episódio foi relembrado por Sakaguchi em uma entrevista especial organizada pela Square Enix para celebrar os 35 anos de Final Fantasy.

Um programador experiente trabalhando em um gênero desconhecido

Embora não tivesse familiaridade com RPGs, Gebelli estava longe de ser um iniciante na indústria. Antes de trabalhar com a Square, ele construiu sua reputação desenvolvendo jogos para o Apple II.

Entre seus trabalhos estava Rad Racer, um jogo de corrida que demonstrava sua capacidade de trabalhar com diferentes desafios técnicos.

A contratação de Gebelli foi importante para a Square justamente por sua habilidade com programação. Enquanto outros integrantes da equipe cuidavam dos aspectos criativos e estruturais do projeto, ele ficou responsável pela implementação do código.

Essa divisão de responsabilidades permitiu que Sakaguchi e os demais profissionais trabalhassem na estrutura do RPG enquanto Gebelli transformava as especificações em funcionalidades executáveis.

Um detalhe curioso aparece na própria tela inicial do primeiro Final Fantasy: antes mesmo de começar a aventura, o jogador encontra o crédito Programmed by Nasir.

É uma apresentação bastante incomum, especialmente considerando a importância que o título teria para a história dos videogames.

As dificuldades de comunicação também faziam parte do desenvolvimento

A diferença de idioma entre Gebelli e os demais integrantes da Square também trouxe desafios durante a produção.

Em outra entrevista oficial, o designer Akitoshi Kawazu comentou as dificuldades encontradas ao preparar especificações técnicas em inglês, que não era sua língua materna.

Segundo seu relato, Gebelli implementava aquilo que estava descrito nos documentos, mas frequentemente alertava os responsáveis pelo design para verificarem se o resultado realmente correspondia ao comportamento esperado.

Isso mostra que o desenvolvimento não dependia apenas da capacidade de programação. Era necessário estabelecer uma comunicação eficiente entre os profissionais responsáveis pelas diferentes partes do projeto.

Mesmo com essas dificuldades, o trabalho de Gebelli foi fundamental para transformar as ideias da equipe em um jogo funcional.

O Apple II também foi utilizado para desenvolver jogos da Nintendo

Outra curiosidade sobre a carreira de Gebelli envolve seu ambiente de desenvolvimento.

Em uma entrevista realizada por John Romero durante um encontro de antigos desenvolvedores do Apple II, em 1998, o programador revelou detalhes de sua metodologia de trabalho.

Segundo Romero, Gebelli desenvolvia seus jogos para NES utilizando um Apple II, criando programas destinados a funcionar em outro hardware.

O método também foi utilizado posteriormente em Secret of Mana, lançado para Super Nintendo. Nesse caso, Gebelli trabalhou com linguagem Assembly para o processador 65816.

A informação é especialmente interessante porque demonstra como os desenvolvedores daquela geração precisavam trabalhar com ferramentas e métodos bastante diferentes dos ambientes modernos de desenvolvimento.

Naquele período, as limitações de memória e processamento dos consoles exigiam um conhecimento profundo do hardware. A experiência anterior de Gebelli com o Apple II acabou sendo uma vantagem importante para enfrentar esses desafios.

A importância de Gebelli para a história de Final Fantasy

O trabalho de Nasir Gebelli não ficou restrito ao primeiro jogo. Ele também participou da programação de Final Fantasy II e Final Fantasy III, consolidando sua importância nos primeiros anos da franquia.

Sua contribuição ajudou a estabelecer as bases técnicas de uma série que posteriormente se tornaria uma das mais conhecidas da indústria.

O caso também revela uma característica interessante do desenvolvimento de jogos antigos: nem sempre os profissionais envolvidos dominavam todas as convenções do gênero em que estavam trabalhando.

Gebelli conhecia profundamente programação, mas precisou compreender as necessidades de um RPG enquanto desenvolvia um dos títulos mais importantes da história da Square.

Conclusão

A história de Nasir Gebelli mostra como a criação do primeiro Final Fantasy reuniu profissionais com conhecimentos diferentes para construir algo que ainda não era comum nos consoles domésticos.

Mesmo sem experiência significativa com RPGs, Gebelli conseguiu assumir a programação do projeto e deixou seu nome registrado na própria tela inicial do jogo.

Sua trajetória também serve como lembrança de que grandes avanços na indústria nem sempre surgem de especialistas em todos os aspectos de um gênero. Às vezes, a combinação entre experiência técnica, criatividade e disposição para aprender é suficiente para ajudar a criar algo que atravessa gerações.

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