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Criador do PlayStation diz que games modernos “estagnaram” e pede mais ousadia aos desenvolvedores

Ken Kutaragi, conhecido como o “pai do PlayStation”, acredita que os videogames avançaram enormemente em gráficos e escala, mas não na mesma proporção em criatividade. Para ele, a indústria está diante de um grande ponto de virada e só chegará à sua “próxima etapa” se desenvolvedores mantiverem a curiosidade e voltarem a liderar em vez de apenas seguir tendências.

Por Redfield | 02 out de 2026 às 16:10 | ⏱️ 8 min de leitura

Ken Kutaragi, engenheiro que liderou a criação do primeiro PlayStation e teve papel decisivo também nas gerações PS2 e PS3, voltou a falar sobre o futuro dos videogames — e sua avaliação sobre o cenário atual não é exatamente confortável.

Durante um painel realizado em 29 de setembro na University of Electro-Communications, no Japão, Kutaragi afirmou que os jogos modernos cresceram dramaticamente em tamanho e qualidade gráfica, mas acredita que o conteúdo e a maneira como os games são concebidos acabaram estagnando. A declaração aconteceu durante a cerimônia de abertura do CEREC, novo centro acadêmico dedicado à pesquisa e educação na área de entretenimento digital.

Apesar da crítica, o veterano não vê a situação como o fim de uma era. Pelo contrário: Kutaragi acredita que os videogames estão próximos de entrar em uma “próxima etapa”, desde que a indústria recupere parte do espírito experimental que marcou suas primeiras décadas.

Jogos ficaram maiores e mais bonitos, mas a criação teria mudado pouco

Kutaragi reconhece que a indústria de games passou por uma transformação gigantesca desde os anos 1970. Hoje, somente o mercado global de software de jogos movimentaria aproximadamente US$ 186 bilhões, superando individualmente segmentos tradicionais do entretenimento como cinema, televisão e música.

Para ele, entretanto, faturamento e evolução tecnológica não significam necessariamente maturidade criativa.

O criador do PlayStation argumenta que os jogos modernos ganharam mundos muito maiores, gráficos mais avançados e produções extremamente complexas, mas considera que a abordagem fundamental para criar conteúdo permanece semelhante à que já existia durante o desenvolvimento do primeiro PlayStation.

Segundo a tradução publicada pela Automaton, Kutaragi disse que lançamentos recentes reforçaram sua impressão de estagnação.

Isso não significa que ele esteja dizendo que todos os jogos modernos são iguais ou ruins. A crítica parece estar direcionada principalmente à maneira como a indústria utiliza seus avanços tecnológicos: para Kutaragi, aumentar resolução, tamanho dos mundos e complexidade de produção não substitui a necessidade de descobrir novas formas de jogar e criar experiências.

“No momento em que você perde a curiosidade, acabou”

A palavra central da apresentação de Kutaragi foi curiosidade.

Falando principalmente aos estudantes e profissionais mais jovens presentes no evento, ele defendeu que desenvolvedores precisam continuar experimentando mesmo quando a indústria parece já ter encontrado fórmulas comerciais bem estabelecidas.

Em uma das declarações mais repercutidas da apresentação, Kutaragi resumiu sua preocupação da seguinte maneira:

“No momento em que você perde sua curiosidade e pensa ‘provavelmente isso já é bom o bastante’, acabou.”

A fala foi traduzida e reproduzida pela Automaton e posteriormente repercutida por veículos como GamesRadar e Push Square.

Para Kutaragi, a curiosidade não deveria ser apenas uma característica pessoal do desenvolvedor, mas parte da mentalidade de quem deseja criar algo realmente novo.

O primeiro PlayStation nasceu com a intenção de “mudar o mundo”

Para explicar sua visão, Kutaragi voltou à origem do próprio PlayStation.

Segundo ele, a equipe responsável pelo console original trabalhava com uma ambição bastante simples de descrever, mas difícil de executar: “mudar o mundo”.

O objetivo não era apenas construir uma máquina melhor do que as concorrentes existentes. Kutaragi lembra que a equipe queria trabalhar com tecnologias de ponta e criar algo que ainda não tivesse um modelo pronto para ser seguido.

Essa filosofia também aparece em relatos anteriores do engenheiro sobre o nascimento do PlayStation.

Durante uma apresentação no Tokyo Game Show de 2024, Kutaragi contou que ele e outros integrantes da equipe viajaram por dezenas — possivelmente centenas — de empresas para apresentar a ideia do console. Muitos dos profissionais consultados simplesmente não acreditavam que a Sony conseguiria entrar com sucesso no mercado de videogames.

Mesmo dentro da Sony, havia grande ceticismo.

O primeiro PlayStation acabou lançado no Japão em 1994 e se transformou em uma das plataformas mais importantes da história da indústria.

Kutaragi acredita que a indústria ainda não amadureceu completamente

Talvez a parte mais otimista da fala seja justamente a afirmação de que, para ele, videogames ainda não são uma indústria plenamente madura.

Isso pode parecer estranho considerando o tamanho atual do setor, mas Kutaragi usa essa ideia de maneira positiva.

Se a indústria ainda não atingiu sua maturidade completa, então também significa que não chegou aos seus limites.

Ele acredita que ainda existem grandes avanços por descobrir e que o mercado está atualmente em um momento de transição capaz de levá-lo para aquilo que chama de “próxima etapa”.

Kutaragi não detalhou qual tecnologia específica provocará essa mudança.

A fala não aponta IA, realidade virtual, cloud gaming ou qualquer outra tendência como a resposta definitiva. O foco está muito mais na mentalidade de quem cria as experiências.

Crítica acontece em meio a uma indústria cada vez mais cara

Embora Kutaragi não tenha transformado sua apresentação em uma análise sobre custos de desenvolvimento, suas declarações aparecem em um momento no qual grandes produções estão ficando cada vez mais caras e demoradas.

Projetos AAA atualmente podem passar muitos anos em desenvolvimento, empregando centenas ou até milhares de profissionais. Isso aumenta a pressão para que publishers apostem em ideias já conhecidas, franquias estabelecidas e estruturas que provaram funcionar comercialmente.

Essa relação entre custos elevados e menor disposição para assumir riscos é frequentemente discutida dentro da própria indústria, mas é importante separar esse contexto da declaração original: Kutaragi não apresentou uma lista de empresas ou jogos que considera responsáveis pela suposta estagnação.

Ele também não citou especificamente PlayStation, Xbox, Nintendo ou qualquer publisher atual como exemplo negativo.

Sua mensagem foi mais ampla: desenvolvedores deveriam voltar a pensar como líderes tecnológicos e criativos, não apenas como seguidores de tendências consolidadas.

Uma crítica curiosa vindo do “pai do PlayStation”

A opinião chama atenção justamente pelo histórico de Kutaragi.

Além de liderar o nascimento do primeiro PlayStation, ele esteve profundamente envolvido nas gerações PlayStation 2 e PlayStation 3, épocas nas quais a Sony frequentemente apostava em arquiteturas e tecnologias bastante agressivas.

O PS2 utilizou o Emotion Engine e ajudou a transformar o DVD em um formato popular de entretenimento doméstico. Já o PS3 ficou conhecido pelo ambicioso processador Cell e pelo investimento inicial em Blu-ray.

Nem todas essas decisões foram simples ou comercialmente perfeitas, mas ilustram bem o tipo de pensamento ao qual Kutaragi parece se referir: tentar construir algo que ainda não possui um caminho totalmente seguro.

Em 2006, por exemplo, uma apresentação oficial do Tokyo Game Show já descrevia Kutaragi falando sobre o futuro do entretenimento e sobre o PS3 como plataforma de “computação em tempo real”.

Vinte anos depois, sua mensagem parece continuar bastante semelhante.

Para Kutaragi, a próxima revolução ainda não aconteceu

O ponto central da apresentação não foi simplesmente declarar que “os jogos de antigamente eram melhores”.

Kutaragi parece defender justamente o contrário: o potencial dos videogames ainda é muito maior do que aquilo que já foi criado.

A indústria possui mais dinheiro, hardware mais poderoso, equipes maiores e ferramentas que seriam inimagináveis na década de 1990. O desafio, em sua visão, é garantir que toda essa capacidade resulte em novas ideias — e não apenas em versões maiores e visualmente superiores de estruturas que já conhecemos.

Por isso, apesar da palavra “estagnação” ter dominado as manchetes, a mensagem do criador do PlayStation termina de maneira bastante otimista.

Para Ken Kutaragi, os videogames ainda não chegaram ao limite.

A próxima grande mudança pode estar justamente nas mãos de desenvolvedores que se recusem a aceitar que “isso já é bom o bastante”.

Fonte: GamesRadar+

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Postado por Redfield
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