ARC Raiders: Embark tenta justificar uso de vozes geradas por IA e reacende debate sobre atores
A Embark Studios voltou a explicar por que utilizou inteligência artificial para gerar parte das vozes de ARC Raiders. Em um novo vídeo, desenvolvedores afirmam que gravar todas as falas manualmente seria impraticável, mas as justificativas apresentadas reacenderam a discussão sobre o futuro dos profissionais de dublagem na indústria dos games.

A utilização de inteligência artificial na dublagem de ARC Raiders voltou a gerar discussões após a publicação de um novo vídeo da Embark Studios. Desta vez, integrantes da equipe de desenvolvimento decidiram abordar diretamente a polêmica envolvendo as vozes sintéticas presentes no jogo, explicando os motivos que levaram o estúdio a adotar essa tecnologia.
O vídeo conta com a participação de Stefan Strandberg, diretor criativo da empresa, além de outros profissionais responsáveis pelo desenvolvimento do jogo. Entre os argumentos apresentados, está a dificuldade de gravar manualmente todas as variações de diálogos necessárias para acompanhar as constantes mudanças e atualizações do projeto.
A explicação, entretanto, não convenceu completamente os críticos, especialmente porque a discussão envolve não apenas praticidade, mas também oportunidades de trabalho, qualidade artística e os limites da utilização de vozes artificiais.
Por que a Embark Studios utilizou inteligência artificial?
Quando ARC Raiders chegou ao mercado, em outubro de 2025, jogadores perceberam que o jogo combinava interpretações realizadas por atores humanos com vozes produzidas por sistemas de inteligência artificial.
A tecnologia utilizada envolve text-to-speech, processo que transforma textos em falas sintetizadas a partir de modelos treinados com gravações de vozes humanas.
Segundo a Embark, os profissionais envolvidos no projeto participaram das gravações e autorizaram a utilização de suas vozes para alimentar a tecnologia.
Um dos principais argumentos apresentados no novo vídeo está relacionado ao sistema de comunicação do jogo.
Em ARC Raiders, os jogadores podem utilizar marcações, conhecidas como pings, para transmitir informações durante as partidas. Essas comunicações precisam apresentar diferentes variações de falas dependendo dos objetos identificados, situações encontradas e mudanças nas mecânicas.
O diretor de áudio Bence Pajor explicou que registrar todas essas possibilidades manualmente seria um processo extremamente trabalhoso.
Durante o vídeo, ele afirmou que os atores ficariam exaustos caso precisassem gravar todas as variações necessárias.
A equipe também argumentou que o desenvolvimento de um jogo em constante atualização exige flexibilidade, especialmente quando novos recursos precisam receber falas específicas.
A declaração sobre os atores gera desconforto
Um dos momentos mais comentados da apresentação acontece quando os desenvolvedores tentam explicar por que consideram a gravação de todas as falas pouco prática.
A justificativa de que os atores ficariam sobrecarregados acabou levantando questionamentos sobre a própria capacidade da indústria de videogames de organizar grandes sessões de gravação.
Afinal, produções com centenas ou milhares de diálogos não são novidade. Diversos jogos já exigiram trabalhos extensos de dublagem, com profissionais gravando diferentes interpretações, variações de frases e reações para situações específicas.



O debate, portanto, não está limitado à quantidade de falas, mas também à decisão de utilizar modelos artificiais para reproduzir interpretações humanas.
Outro momento curioso envolve dois atores que participam do vídeo e comentam sobre a utilização da tecnologia.
Inicialmente, algumas declarações parecem defender a utilização da inteligência artificial. Entretanto, posteriormente, os próprios profissionais levantam uma questão importante: até que ponto poderiam considerar suas interpretações como trabalhos verdadeiramente próprios quando uma parcela significativa das falas não era gravada diretamente por eles?
A reflexão evidencia uma das principais preocupações envolvendo a tecnologia: a diferença entre licenciar uma voz e efetivamente entregar uma interpretação artística.
Embark já começou a substituir algumas vozes artificiais
A polêmica não é recente. Desde o lançamento de ARC Raiders, a utilização de inteligência artificial nas vozes provocou críticas de jogadores e profissionais da indústria.
Em março de 2026, o CEO da Embark Studios, Patrick Söderlund, revelou que a empresa havia regravado algumas falas originalmente produzidas por inteligência artificial, substituindo-as por gravações realizadas por atores profissionais.
Na ocasião, o executivo reconheceu que existe uma diferença de qualidade entre as duas abordagens e afirmou que um ator profissional oferece uma interpretação superior à inteligência artificial.
A mudança representou uma redução na quantidade de falas artificiais presentes no jogo, embora não tenha significado o abandono completo da tecnologia.
A explicação apresentada anteriormente pelo CEO também indicava que a inteligência artificial poderia funcionar como ferramenta de produção. Dessa maneira, os desenvolvedores conseguiriam experimentar diferentes versões de diálogos antes de decidir quais seriam gravadas definitivamente pelos profissionais.
No novo vídeo, Stefan Strandberg reforça que a Embark não pretende substituir atores humanos.
Segundo o diretor criativo, a intenção seria justamente valorizar as interpretações e oferecer mais espaço para os profissionais desenvolverem seus personagens.
Entretanto, existe uma contradição percebida por parte dos críticos: a substituição de algumas falas artificiais aconteceu depois da repercussão negativa da decisão original.
Isso levanta dúvidas sobre quanto da mudança representa uma evolução na filosofia do estúdio e quanto foi uma resposta à insatisfação dos jogadores.
O debate sobre IA vai além de ARC Raiders
A discussão envolvendo ARC Raiders representa um problema cada vez mais presente na indústria de videogames.
A inteligência artificial pode oferecer vantagens durante o desenvolvimento, principalmente em tarefas repetitivas, prototipagem e produção de grandes quantidades de conteúdo.



Entretanto, quando a tecnologia começa a reproduzir trabalhos originalmente realizados por profissionais, surgem questões importantes sobre remuneração, autorização, reconhecimento e oportunidades de emprego.
No caso da dublagem, existe uma diferença significativa entre utilizar uma ferramenta para testar diálogos e lançar um produto comercial com vozes sintetizadas a partir das interpretações de atores.
Mesmo quando existe autorização para utilizar as gravações, permanece a discussão sobre a quantidade de trabalho que pode ser transferida para sistemas automatizados.
Também existe uma questão relacionada à qualidade. Uma voz artificial pode reproduzir palavras e entonações de maneira convincente, mas isso não significa necessariamente que consiga entregar a mesma expressividade, personalidade e intenção de uma interpretação humana.
Para jogos com personagens importantes e narrativas elaboradas, essas diferenças podem afetar diretamente a experiência dos jogadores.
O que esperar da Embark Studios daqui para frente?
O novo posicionamento demonstra que a Embark está mais disposta a discutir publicamente suas decisões envolvendo inteligência artificial.
A substituição de parte das falas artificiais por gravações humanas também indica que o estúdio reconheceu a importância da qualidade das interpretações e da participação dos profissionais envolvidos.
Entretanto, a empresa não anunciou o abandono completo da tecnologia em ARC Raiders.
Isso significa que a discussão provavelmente continuará acompanhando as próximas atualizações do jogo, especialmente conforme novos personagens, diálogos e recursos forem adicionados.
Conclusão
A Embark Studios apresentou argumentos relacionados à produtividade e à complexidade do desenvolvimento para justificar o uso de inteligência artificial na dublagem de ARC Raiders. Embora a tecnologia possa facilitar determinadas etapas da produção, a explicação de que os atores não conseguiriam gravar todas as falas não elimina as preocupações sobre o impacto dessa escolha no mercado de trabalho.
A substituição de algumas vozes artificiais por interpretações humanas foi um passo positivo, mas ainda não representa uma mudança completa de posicionamento.
No fim, o caso mostra que a utilização de inteligência artificial nos videogames precisa ir além da conveniência técnica. Transparência, remuneração adequada, autorização e valorização dos profissionais continuam sendo questões fundamentais para o futuro da indústria.
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