Ex-desenvolvedor da Epic Games critica usuários do Steam e questiona fidelidade à plataforma
Kiaran Ritchie, ex-desenvolvedor da Epic Games, criticou a comissão cobrada pela Steam e afirmou que o apego dos jogadores às suas bibliotecas digitais dificulta o surgimento de concorrentes. A discussão também recebeu comentários de Tim Sweeney, CEO da Epic Games, que voltou a questionar o modelo de negócios da Valve.

A disputa entre Epic Games e Valve ganhou mais um capítulo após declarações de Kiaran Ritchie, antigo programador principal de animação da criadora de Fortnite. Em uma publicação no X, o ex-funcionário criticou a comissão cobrada pela Steam sobre as vendas de jogos e direcionou parte de suas críticas aos próprios consumidores da plataforma.
Para Ritchie, a preferência dos jogadores por manter todos os títulos em uma única biblioteca representa um dos principais obstáculos para o crescimento de lojas concorrentes. Na avaliação do desenvolvedor, muitos consumidores demonstram uma fidelidade tão grande à Steam que acabam dificultando a adoção de alternativas que poderiam oferecer condições financeiras melhores aos estúdios. A discussão rapidamente ganhou repercussão depois que Tim Sweeney, CEO da Epic Games, também participou do debate e aproveitou a oportunidade para reforçar suas críticas à plataforma da Valve.
Ex-desenvolvedor questiona a comissão de 30% da Steam
Um dos principais pontos levantados por Kiaran Ritchie envolve a participação financeira da Valve nas vendas realizadas pela Steam. O modelo tradicional da plataforma estabelece uma comissão de 30% sobre as receitas dos jogos, percentual que há bastante tempo provoca discussões entre desenvolvedores independentes e grandes publicadoras.
Na visão do ex-funcionário da Epic Games, essa cobrança representa uma parcela significativa do dinheiro que poderia permanecer com os estúdios responsáveis pela produção dos títulos. Ele defende a existência de uma plataforma de distribuição capaz de oferecer condições mais favoráveis aos desenvolvedores, permitindo que eles retenham uma parte maior da receita gerada pelas vendas.
Ritchie também sugeriu que seria possível desenvolver uma alternativa à Steam em aproximadamente uma semana utilizando ferramentas de inteligência artificial e programação assistida, prática conhecida como vibe coding. Entretanto, essa afirmação representa uma opinião sobre a facilidade de desenvolvimento de software, e não uma demonstração de que seria possível reproduzir toda a infraestrutura comercial e tecnológica da Valve nesse período. O próprio desenvolvedor reconheceu que existe um obstáculo muito maior para qualquer concorrente: a força da comunidade construída em torno da Steam.
Apego dos jogadores à biblioteca Steam dificulta a concorrência
A crítica mais direcionada aos consumidores apareceu quando Ritchie comentou sobre os chamados efeitos de rede, fenômeno no qual uma plataforma se torna mais valiosa à medida que aumenta sua quantidade de usuários. No caso da Steam, esse comportamento está diretamente relacionado às bibliotecas digitais acumuladas pelos jogadores ao longo dos anos. Muitos consumidores possuem centenas de jogos vinculados às suas contas, além de conquistas, listas de amigos, avaliações, comunidades, comentários e outros recursos sociais.
Esse conjunto de funcionalidades cria uma relação que vai muito além da simples compra de jogos. Mesmo quando outra loja oferece preços competitivos ou condições comerciais mais vantajosas, convencer os consumidores a utilizar uma plataforma diferente pode ser bastante complicado. Para Ritchie, existe uma espécie de obsessão dos jogadores pela ideia de que determinado jogo precisa estar obrigatoriamente na biblioteca Steam. Essa preferência, segundo ele, dificulta a migração dos consumidores e reduz as oportunidades de crescimento para outras lojas digitais.



O argumento, entretanto, também encontra resistência entre os próprios jogadores. Afinal, a preferência pela Steam não está necessariamente relacionada apenas à fidelidade à marca, mas também à experiência oferecida pela plataforma.
Tim Sweeney também entra na discussão contra a Valve
A declaração de Kiaran Ritchie chamou a atenção de Tim Sweeney, CEO da Epic Games, que aproveitou a discussão para ampliar as críticas à Valve. O executivo afirmou que a empresa estaria prejudicando o desenvolvimento da indústria ao manter os jogos de PC conectados ao ecossistema social do Steamworks. O Steamworks reúne ferramentas e serviços disponibilizados aos desenvolvedores, incluindo recursos relacionados a autenticação, integração com a plataforma, funcionalidades sociais e infraestrutura de rede.
Na avaliação de Sweeney, essa dependência pode dificultar a comunicação entre jogadores de diferentes plataformas, incluindo dispositivos móveis, consoles e outras lojas de PC. Entretanto, a discussão também recebeu questionamentos da comunidade. Entre os pontos levantados está a possibilidade de utilizar determinadas tecnologias da Valve em projetos com suporte a outras plataformas, dependendo da implementação escolhida pelos desenvolvedores. Isso mostra que o debate sobre o Steamworks envolve questões técnicas que não podem ser reduzidas simplesmente à existência de uma barreira absoluta entre jogadores.
Epic Games Store ainda enfrenta o desafio de competir com a Steam
As declarações também levantam uma questão importante: se existem alternativas à Steam, por que tantas pessoas continuam preferindo a plataforma da Valve?
A Epic Games Store é um dos exemplos mais conhecidos de concorrência direta. A loja oferece condições comerciais diferentes para desenvolvedores, além de promoções frequentes e distribuição de jogos gratuitos. Entretanto, conquistar a preferência dos consumidores exige mais do que oferecer uma comissão menor aos estúdios. A experiência de utilização, a estabilidade do aplicativo, os recursos sociais, a organização da biblioteca e a confiança dos consumidores também influenciam essa escolha.
A Steam construiu uma comunidade durante muitos anos, acumulando funcionalidades que fazem parte da rotina de milhões de jogadores. Trocar de loja, portanto, não significa necessariamente abandonar uma plataforma, mas dividir compras, amigos e bibliotecas entre diferentes serviços. Esse é justamente um dos maiores desafios enfrentados pela Epic Games Store e por outras concorrentes.
O que essa discussão significa para os jogadores?
Embora as críticas de Ritchie e Sweeney estejam concentradas principalmente nos interesses dos desenvolvedores, existe uma consequência importante para os consumidores: a concorrência entre lojas digitais pode influenciar preços, promoções e condições de distribuição. Quando os estúdios conseguem negociar taxas menores, existe a possibilidade de aumentar suas margens financeiras e investir mais recursos em novos projetos. Entretanto, isso não significa automaticamente que os jogos ficarão mais baratos ou que a qualidade dos lançamentos aumentará.
Também é importante considerar que a comissão cobrada por uma loja não representa o único custo envolvido na distribuição de um jogo. Infraestrutura, marketing, suporte técnico, processamento de pagamentos e serviços adicionais fazem parte dessa equação. Por outro lado, a preferência dos jogadores pela Steam demonstra que uma loja digital não compete apenas pelo preço. A biblioteca acumulada, os recursos sociais e a facilidade de utilização também possuem valor para o público.
Conclusão
As declarações de Kiaran Ritchie mostram que a discussão sobre a comissão da Steam continua sendo um assunto importante para desenvolvedores e empresas do setor. Entretanto, ao direcionar suas críticas também aos consumidores, o ex-funcionário da Epic Games evidencia um dos maiores obstáculos enfrentados por qualquer concorrente da Valve: a dificuldade de substituir um ecossistema que já faz parte da rotina dos jogadores. A Epic Games Store possui condições comerciais diferentes e continua disputando espaço no mercado de PC, mas conquistar usuários exige muito mais do que oferecer uma alternativa financeiramente interessante aos estúdios.
No fim, a preferência pela Steam não depende exclusivamente de uma questão de marca. Para muitos jogadores, manter jogos, amigos, conquistas e funcionalidades em um único lugar é uma vantagem concreta. E enquanto outras lojas não conseguirem oferecer uma experiência igualmente atraente, a posição da Valve continuará sendo difícil de desafiar.
Fontes
O que achou da notícia?
0 reaçõesLEIA TAMBÉM
💬 Fórum da Comunidade 0
Ninguém comentou ainda.